TOLENTINO
Gosto do Tolentino Mendoça. Já sei, já sei, não se pode dizer que se gosta de pessoas vivas; que é melhor calar, que embaraça. Mas, ainda assim. É o único padre que eu conheço com quem nunca me apeteceria discutir religião. Gosto dele e da sua poesia. Da sua capacidade de síntese. Não me posso esquecer de uma vez no Salon de Paris em que vários dos nossos poetas nos entediaram a boa vontade com os seus discursos nutridos e chegou a vez do Tolentino. Disse uma ou duas frases e fez-se silêncio. Todos soubemos que não haveria mais nada a dizer.
Vou à estante à procura de um poema seu...
Pode ser este:
"UMA COISA A MENOS PARA ADORAR
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se irreconciliáveis
entendes por isso o meu pâncio
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparao seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais para o milagre do fogo
hoje estive tão triste"
E agora posso ir dormir.
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